"Max... Max... porque você nos abandonou?"
Os pensamentos de Max Rockatansky pareciam cada vez mais distantes... Uma neblina escura pairava sobre a sua mente. Sua pele parecia derreter como ferro fundido sob o sol da Terra Desolada. Um brisa radioativa lambia seu rosto deixando feridas eternas e incuráveis. Lentamente "o homem sem nome" ia se desfazendo nas areias do deserto. Uma dor lancinante causava tremores incontroláveis na sua perna direita e um líquido escuro não parava de escorrer de sua cabeça. Tamanho era o sangramento que ele mal podia enxergar. Aos poucos ele perdia a consciência e o mundo parecia estar virado de cabeça para baixo. E na verdade estava...
Já havia escurecido quando o "guerreiro da estrada" despertou de seu transe fatal. Foi por pouco. Max estava pendurado de cabeça para baixo em seu Magnum Opus preso ao sinto de segurança. Lentamente ele começava a recordar do que acontecera horas antes. Um besteira. Uma grande besteira. Uma besteira sem tamanho!
Max viajava a 180 km/h com seu poderoso motor V8 quando ele se assustou com um cachorro que surgiu de repente de trás de uma formação rochosa a beira da estrada. Dizem que na hora da morte passa um filme de toda a nossa vida em câmera lenta para nos lembrar de quem fomos, o que fizemos e o que deixamos de fazer. Entretanto, a única coisa que Max viu foi um cão sarnento, linguarudo e que parecia feliz por levar na boca o que restou da perna de um animal há muito tempo decomposto. Que safado! "Eu deveria ter passado por cima...", considerou Max como alguém que só encontra um bom argumento horas depois de uma discussão.
A grande verdade é que ao tentar desviar do cão linguarudo o Magnum Opus perdeu completamente o controle e girou umas 11 vezes no ar antes de atingir o solo. Seu joelho defeituoso, que há muitos anos fora alvejado por um tiro certeiro, se chocou violentamente contra o volante uma dezena de vezes enquanto o Magnum Opus parecia descer uma montanha russa sem fim. Numa dessas revoluções intermináveis o corpo de Max fora lançado contra o para-brisas fazendo com que a sua cabeça quebrasse o vidro em mil pedaços. A partir daí tudo ficou completamente escuro. E assim permaneceu até que tudo realmente estivesse escuro.
Agora, sob a luz das estrelas de radiação perpétua, Max começava a contabilizar os estragos... Seu joelho estava muito fodido, porém não descartável, apesar das muitas moscas que disputavam cada centímetro daquela superfície deformada e suja. Sua cabeça estava salpicada de pequenas partículas de vidro que faziam brilhar uma ferida aberta em sua testa. Seus pensamentos não estavam em ordem e seus parafusos continuavam fora do lugar. Normal. Ele fedia como o demônio, mas suas narinas não conseguiam mais distinguir esse tipo de odor.
Lentamente ele tentou alcançar uma pequena faca presa a sua bota. Com muito esforço ele a retirou de seu esconderijo secreto. Ainda estava preso de cabeça para baixo... Max sabia que no momento em que ele se desprendesse seu corpo cairia como um saco de material tóxico pesado no teto retorcido do seu Magnum Opus. Não havia escolha. Ele precisava sair dali por mais insuportável que fosse a dor que ele iria sentir. Sua cabeça estava latejando devido a desidratação e o sangramento. Se sentia muito tonto e perdido. Mas essa não foi a primeira vez e nem seria a última.
Ele segurou firme o cinto de segurança e aspirou profundamente. Prendeu a respiração até uma onda de relaxamento invadir o seu corpo. O show precisava começar... "Um... dois... três... e... BLÁAAUU!!"
Quando Max recobrou a consciência o sol já estava nascendo. Uma paisagem em tons de rosa, laranja e vermelho se descortinava para além do horizonte e das mais distantes dunas. Max estava tão tortuosamente jogado contra o teto do veículo que parecia um marionete decadente no fundo de um baú de antiguidades. Mas ele não terminaria assim. Afinal, não são assim os heróis? Belos, cheirosos, fortes, justos, corretos e invencíveis? Pois é... O "guerreiro da estrada" mal podia se mexer sem sentir uma dor aguda. Os efeitos da desidratação o deixava tonto e a fome martelava o seu estômago. Ele precisava sair dali.
Como uma serpente que luta pela sobrevivência, Max Rockatansky se rastejou para fora do Magnum Opus até o amanhecer radioativo da Terra Desolada. A paisagem era linda. Um deserto rosa-alaranjado se estendia a perder de vista criando um cenário tão utópico quanto fantasioso. Uma brisa leve soprava os cabelos castanhos e ensanguentados do "homem sem nome". E vagarosamente as dunas se moviam num balé improvável. Apesar de belo, não havia nada de acolhedor naquele lugar. Em lugar nenhum havia. O mundo era agora uma grande bola de poeira fétida. E os seres que ali habitavam estavam fazendo hora extra.
Mas Max não tinha tempo para essas considerações. Ele sentia fome, sede, dor e seu único meio de locomoção estava praticamente destruído...
Continua!
(Lucas Nogueira Garcia)

